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Iniciação à Fotografia - Luz

Discussão em 'Fotografia e Vídeo' iniciada por Rui Marto, 29 de Março de 2009. (Respostas: 19; Visualizações: 9290)

  1. Rui Marto

    Rui Marto Power Member

    Luz

    O que é a luz? Ora, a luz é a matéria prima da fotografia. O processo de fotografar baseia-se na captura de luz para um suporte, seja analógico ou digital, e é essa luz que constitui as nossas imagens. É por isso importante para um fotógrafo conhecer a luz, as suas características e como a controlar, ou aproveitar, caso não seja controlável.

    Intensidade
    Uma das características mais importantes de luz é a sua intensidade. Regra geral, quanto mais forte for a luz, melhor. Para uma dada situação, quanto mais forte a luz, maiores as velocidades de obturação (shutter speed) e menores as aberturas que podemos usar, ou para as mesmas velocidades e aberturas, mais baixo vai ser o ISO utilizado, resultando numa imagem mais limpa de ruído.
    Por outro lado, a luz pode ser fraca ao ponto de se tornar quase impossível tirar uma foto em condições. Esta é útil quando, não sendo fraca ao ponto de impossibilitar a foto, ajuda o fotógrafo a criar uma atmosfera mais mística, através de outras características.
    Independentemente da intensidade da luz, a quantidade que é captada na fotografia é controlável através da exposição.

    Temperatura
    Apesar de ser consensual que, quando constituída por proporções idênticas de todo espectro, a luz é branca, existem vários tipos de "brancos" definidos pela temperatura desta. A escala de temperaturas deriva da física, que nos diz que um material quando aquecido no vácuo irradia luz. Curiosamente a temperatura da luz irradiada corresponde ao inverso da temperatura do material. Por exemplo, a luz a 3200K (K provém de graus Kelvin, escala da temperatura absoluta) é amarela, cor quente, enquanto que a 8000K é azul, cor fria. O padrão para a luz diurna (presente durante a maior parte do dia) é 5500K.

    [​IMG]

    No tempo do filme o fotógrafo tinha que se antecipar às condições, carregando a máquina com filme próprio para o tipo de luz que iria usar (luz branca, tungsténio, fluorescente). Na era digital, felizmente, podemos calibrar as máquinas para o tipo de luz que vamos utilizar a qualquer altura. Chama-se a isto o balanço de brancos (white balance).
    As máquinas mais modernas já trazem várias calibrações pré-programadas, sendo as mais comuns "Diurna"(daylight), "Flash", "Tungsténio" e "Fluorescente". Máquinas mais avançadas permitem também criar balanços de brancos personalizados (custom WB), através de uma foto de um cartão cinza-neutro ou introduzindo directamente a temperatura em graus Kelvin. Se por alguma razão não nos for possível, ou não for prático, andar a permutar entre os vários balanços de brancos, as máquinas digitais dispõem ainda do balanço de brancos automático, em que a própria máquina se encarrega de acertar a temperatura da luz.

    Contraste
    Outra das características mais importantes da luz é o seu contraste. O contraste depende do ângulo formado pelos raios de uma fonte de luz, que varia consoante a sua distância e tamanho.
    Uma fonte de luz de alto contraste é, por exemplo, o Sol num dia de céu limpo. Este apesar de ser grande, encontra-se tão distante que os seus raios acabam por ser praticamente paralelos. Este tipo de luzes é facilmente reconhecível pelas suas sombras bem definidas, também chamadas de sombras duras. Por esta razão, este tipo de luzes são também chamadas de luzes duras.
    No caso de um céu nublado, por exemplo, a fonte de luz passa a estar consideravelmente mais próxima (as nuvens) e ocupa uma grande área sobre nós, sendo por isso uma luz suave. Ao atravessar a nuvem, os raios solares dispersam, acabando por incidir de vários ângulos. Por este motivo, os raios passam a atingir parcialmente a sombra, tornando esta menos definida. Mais uma vez consegue-se detectar o tipo de luz pela definição da sua sombra.

    [​IMG]

    Será então uma luz pequena sempre má? Não. O tamanho da fonte de luz é relativo ao tamanho do que se está a fotografar. Também, como podemos ver acima, existem modificadores que nos permitem alterar o tipo de luz, independentemente do seu tamanho (Esquerda: Sombrinha difusora; Direita: Grelha).

    Direcção
    A direcção é isso mesmo, a direcção de incidência da luz em relação à superfície do que está a ser fotografado. Esta característica é importante no sentido em que pode acrescentar ou reduzir a textura, dependendo da sua perpendicularidade e ponto de vista. Em fotografia de beleza, por exemplo, é bastante comum usarem-se flashes anelares (ring flash), típicos de macro, para que a incidência da luz seja perpendicular à pele e alinhada com o ponto de vista, eliminando o máximo de textura, criando uma pele com aspecto suave. Já em fotografia de paisagem, é comum fotografar-se com o sol baixo, para que a luz seja tangente à superfície e paralela ao ponto de vista, criando o máximo de relevo no terreno.

    Como tirar proveito?
    Um fotógrafo tem que ser capaz de observar a luz, detectar as suas características e saber quais se adaptam ao estilo de fotografia que pretende fazer. Se lhe for possível, poderá também estudar e modificar a luz, ou então, caso esteja fora do seu controlo, aguardar pelo momento certo. Alguns exemplos já foram abordados acima, enquanto se descrevia as características da luz, mas vamos então falar concretamente da sua utilização nas duas situações fotográficas mais comuns.

    Retratos
    Neste tipo de fotografia não é recomendável fotografar de baixo de sol directo, especialmente se este estiver alto (meio dia). A esta hora a luz é branca (5500K) conferindo um tom mais pálido à pele. É alta, resultando em sombras e relevos, especialmente por baixo dos olhos, reforçando as olheiras e uma sombra inestética no pescoço. A esta altura do dia é recomendável procurar-se sombra, junto de uma árvore ou casa, onde se deixa de ter a incidência directa da luz e também sombras duras. Se o céu estiver nublado, como vimos acima, automaticamente torna-se numa caixa difusora gigante, tornando a luz difusa e muito suave. Já ao final da tarde/início da manhã a luz é lateral, tornando o seu ângulo de incidência controlável (basta pedir à pessoa para se virar um pouco). Também, devido à filtragem que sofre na atmosfera, a sua temperatura baixa, ganhando tons mais quentes, que se reflectem em tons de pele com ar mais saudável.

    Paisagem
    Os nossos olhos dependem das sombras para reconhecer a forma dos contornos, por isso é pouco recomendável tirar fotografias de paisagens quando o sol está directamente por cima (novamente, perto do meio dia). No entanto é também a esta hora do dia que a luz é mais intensa, as cores estão mais vivas e se consegue maior saturação, por isso dependendo do efeito pretendido, não é completamente errado fotografar-se a estas horas. Nem sempre o interesse da paisagem é a paisagem em si. Podem ser as cores, os contrastes, algum efeito particular, um arco-íris, um reflexo, etc. Ao final da tarde e início da manhã conseguem-se céus de variadas cores, com excelentes gradientes, assim como relevos bem realçados.

    Quando não há luz?
    Desde há alguns anos que existe iluminação artificial e actualmente o Homem dispõe de uma panóplia de tipos de luz.
    As mais comuns, que quase todos devemos ainda ter nas nossas casa, são as luzes de incandescência ou tungsténio. Estas luzes são fortemente amarelas, sendo por isso boas para criar certos ambientes, mas no geral tornam-se desagradáveis.
    Seguidamente temos as luzes fluorescentes, comuns em escritórios, cozinhas, etc. Estas luz têm um espectro esverdeado, sendo por isso complicadas de se corrigir e particularmente desagradáveis de se utilizar.
    Ambos estes tipos de luz são considerados luz contínua.
    Por fim resta o flash. Foi o tipo de luz que mais revolucionou a fotografia, devido à sua intensidade, temperatura e rapidez. É por norma uma luz muito mais potente que as anteriores, branca e que, devido a ser uma descarga instantânea, não é afectada pela velocidade de obturação da câmara. Recentemente gerou-se também o movimento "strobist", que consiste na exploração de todas as potencialidades dos flashes portáteis. Isto deve-se ao facto destes flashes serem práticos, fáceis de transportar e, com a evolução dos sistemas TTL, muito funcionais em comparação com os típicos flashes de estúdio.

    Resta-nos agora a nós, fotógrafos, tentar "domar" a luz, observando e experimentando, para que a conheçamos cada vez melhor, por forma a conseguirmos mais facilmente atingir os resultados pretendidos, sejam eles o mais naturais e correctos possíveis, ou completamente inovadores.

    Rui Marto
     
    Última edição: 12 de Abril de 2009
  2. Rui Marto

    Rui Marto Power Member

    Contribuições:



    Comentários:
    Os comentários devem ser relativos ao artigo e usados para expressar a vossa opinião sobre o tema, adicionar informação ou alertar para incorrecções.
     
    Última edição: 12 de Abril de 2009
  3. strobe

    strobe Moderador
    Staff Member

    Mais algumas informações soltas:

    Também é de notar que o "auto white balance" dos nossos olhos está sempre ligado e é muito eficaz. Por isso é tão difcil medir "a olho" o WB da luz.


    Para "medir" o WB podemos:

    - Usar uma superfície de referencia e um colorímetro (serve o sensor da máquina e é o que se faz com no WB "custom"). Existem muitos produtos que servem de "referencia" que vão desde a comum folha de papel (que pode ela própria não ser totalmente branca) até cartões pintados com vários tons de cinzento calibrados. Quem usa RAW pode usar esta superfície de referência à posteriori para acertar o WB.

    - Reconhecer condições típicas de iluminação. Usualmente quando entro numa sala procuro logo onde estão as fontes de luz e tento avaliar a sua qualidade. Isto é valido tanto para o WB como para todas as outras características referidas.


    Problemas típicos de WB:

    - WB mixto: por exemplo numa sala onde se combina iluminção quente (usualmente lâmpadas incandescentes) com iluminação mais fria (lâmpada fluorescente, janela com sol ou flash). No caso do flash pode resolver-se com os gels para equilibrar o se WB com o da cena. Nos outros casos, é melhor evitar a situação usando outro enquadramento ou mudando/apagando as fontes de luz indesejáveis.

    - Fonte de luz com um espectro descontínuo: na iluminação publica são usadas lâmpadas de descarga em vapor de mercúrio ou vapor de sódio. Em particular, as mais comuns nas nossas ruas são as de vapor de sódio a baixa pressão, que dão uma luz amarelada praticamente monocromática. Daí ser quase impossível fotografar outras cores com esta iluminação.

    - WB errado. Em RAW isto não é problema. Em JPEG normalmente implica uma foto estragada, pois à informação de cor que é deitada fora (ex.: ao tirar uma foto ao sol com WB tungstenio a foto fica totalmente azul e os canais verde e vermelho ficam praticamente a zero).
     
  4. kikofra

    kikofra Power Member

    Parabens... Acho que a luz artificial que há em casa so falta falar daquelas lampadas que poupam energia que agora não me lembro o nome.
     
  5. strobe

    strobe Moderador
    Staff Member

    As lâmpadas economizadoras são fluorescentes.
     
  6. kikofra

    kikofra Power Member

    ha ok... obrigado... ;)
     
  7. DiegoV

    DiegoV Power Member

    Acho que há ali uma incorrecção (ou então sou eu que estou a fazer confusão):

    No meu entender, uma velocidade de 1/500 é maior que 1/250, por exemplo. O tempo de exposição é menor, mas a velocidade do obturador é maior... correcto? Por este ponto de vista, ali deveria dizer que a luz intensa permite velocidades de obturação... menores.

    Ou estou completamente equivocado e a interpretar o conceito de velocidade de obturação ao contrário? Se for o caso, peço desculpa e podem apagar o post :)

    Outro ponto para o qual gostaria de alertar é quase uma picuinhice da minha parte, mas cá vai:

    O correcto seria debaixo (tudo junto). [Eu avisei que era picuinhice :p]



    Num comentário mais geral acerca do artigo, tenho a dizer que está muito completo e informativo. É deste tipo de tópicos que se precisa.

    Os meus parabéns ao Marto :D
     
    Última edição: 29 de Março de 2009
  8. c3l5o

    c3l5o I'm cool cuz I Fold

    Se a velocidade do obturador então permite velocidades de obturação menores? :S acho que te enganaste aí com qlq coisa
     
  9. DiegoV

    DiegoV Power Member

    Vou tentar explicar melhor a minha dúvida/sugestão:

    O tempo de exposição é o tempo que o sensor/filme está exposto à luz, certo? Até aqui acho que estamos de acordo... Esse tempo pode ser maior ou menor (por exemplo podemos estar a falar de 1/100 segundos, que é um tempo 100 vezes menor que 1 segundo). Neste caso, a velocidade não será superior no caso do tempo de 1/100, quando comparada com a velocidade a 1 segundo?


    A título de exemplo, imagina que estás a correr os 100 metros comigo. Tu demoras 10 segundos a chegar ao fim e eu demoro 100 segundos. O teu tempo de corrida é menor que o meu, e a tua velocidade de corrida é maior que a minha.
    Não se aplica o mesmo princípio ao tempo de exposição/velocidade de obturação?

    (Peço desculpa se estou a dizer uma enorme barbaridade :p)
     
  10. adolfo dias

    adolfo dias Power Member

    quanto maior a velocidade menor o tempo de exposição.
    mais luz significa velocidades mais rapidas e exposiçoes menores
     
  11. DiegoV

    DiegoV Power Member

    Precisamente, é isso que tenho estado a tentar dizer :p
     
  12. strobe

    strobe Moderador
    Staff Member

    DiegoV: O Rui escreveu bem. Tu é que estas a confundir velocidade de obturação com tempo de exposição.

    Por definição, a velocidade do obturador é inversamente proporcional ao tempo de exposição: quanto maior a velocidade, menor o tempo de exposição.

    O que cria confusão é o facto de, na fotografia, às vezes falamos em "velocidade", outras vezes em "tempo de exposição", mas como unidades de medida usamos sempre as do tempo de exposição (segundos).

    Na física, qualquer velocidade tem uma fórmula do tipo:

    velocidade = distancia/tempo

    Por isso, se quiséssemos ser preciosistas, a velocidade do obturador deveria ser expressada em metros/segundo. Mas isso para o fotógrafo não quereria dizer absolutamente nada, até porque geralmente a velocidade das cortinas do obturador é constante e o que varia é o tempo entre a primeira cortina abrir e segunda cortina fechar.
     
  13. DiegoV

    DiegoV Power Member

    Tens razão, eu próprio estava a defender isso (velocidade = inverso do tempo de exposição) mas, não sei porquê, troquei-me todo e dei a entender o contrário.

    Obrigado pela correcção.
     
  14. viky_76

    viky_76 Power Member

    Este excelente post só vem reforçar a menssagem que habitualmente os mais entendidos tentam fazer passar aos mais noob na fotografia, de que se deve sempre que possível utilizar os controlos manuais das câmaras.
    Estas por muito evoluídas que sejam (e são cada vez mais), são máquinas e como tal não tem o poder de pensar, por exemplo o exemplo que o rui deu da lâmpada fluorescente, eu quando comecei a tirar fotos em modo manual e a compensar o WB e sobreturo a escolher o modo correcto em função do tipo de iluminação, comecei a ver as diferenças face ao mesmo tipo de fotografia em modo full auto, em que as mesmas fotos em interiores (cozinhas) ficavam com um aspecto diferente da realidade.
    Da mesma forma podemos ainda jogar com o WB de forma a enganar a máquina e dar uma temperatura de cor diferente de modo a dar um tom mais quente ou mais frio a uma determinada foto.
    Ex. Numa foto de por-do-sol ao escolher-mos o modo nublado, vai dar a foto um aspecto do céu carregado com tons mais avermelhados.
     
  15. Boas tardes,

    INTERESSANTÍSSIMO. Continuem o excelente trabalho/discussão :)

    *edit: talvez umas fotos sobre o que é sombrinha, grelha e outros equipamentos e onde encontrar ajudasse.

    Cumprimentos,

    CA
     
    Última edição: 1 de Abril de 2009
  16. Rui Marto

    Rui Marto Power Member

    Quando começarem a surgir os tópicos de ambiente controlado. Até lá não faz muito sentido aprofundar isso.
     
  17. Ok, Rui Marto. Quando entenderes necessário. Cá aguardo :)

    Cumprimentos,

    CA
     
  18. strobe

    strobe Moderador
    Staff Member

    Necessário é, mas o tempo é que não abunda para ninguém. E estes posts demoram bastante tempo a preparar para ter a qualidade necessária. Então quando se entra no negócio da "manipulação" da luz é fácil ficar "esmagado" por tanta coisa que há a dizer.

    O blog strobist (http://www.strobist.blogspot.com/) concentra-se só na manipulação da luz de flashes pequenos e mesmo assim é quase uma bíblia. E pouca atenção é dada a manipulação da luz natural com reflectores e telas, coisa que em Portugal, dada a sua grande exposição solar, até devia ser uma opção mais popular.

    O meu kit de iluminação artificial está incompleto, porque senão também postava alguns exemplos. Já vi users por ai que têm estúdios caseiros bem mais interessantes (*hint* *hint*).

    Mas para quem quiser começar a pesquisar, há um outro Rui que tem muitas fotos de equipamento e setups e ainda algumas inovações à boa maneira "desenrasca" portuguesa aqui:

    http://www.flickr.com/photos/ruimleal/collections/72157603477876710/

    No seu blog tem mais explicações

    http://lightingmods.blogspot.com/
     
  19. Pá, não me consigo entender com este tipo de coisas soltas. Blog praqui, foto solta pracolá, link prácoli. Sou daquelas pessoas que precisa de tudo compiladinho no mesmo lugar :D

    Cumprimentos.
     
  20. andré ferrari

    andré ferrari Colaborador
    Staff Member

    Mais um artigo "à lá Marto". Gostei especialmente do sub-titulo contraste e retratos, porque será? ;)
     

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